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10 Abril, 2014

Engenhos, Beleza infra-estrutural das obras (…) – Nuno Grande

Engenhos - Beleza infra-estrutural

 

The infra-structural beaty of the works of the team Menos é Mais (Less is More)

 

Ingenuity

 

Those who think that they will find conventional works of architecture in this issue of TC are going to be disappointed. What appears in this publication are “engines” of an infra-structural beauty, nearest to that exact compositions that we admire in the Roman aqueducts, in the medieval towers, in the renaissance bastions, in the Enlightenment facades that rebuilt Lisbon after the earthquake of 1755, in the nineteenth-century industrial buildings, in the bunkers that defended the AtIantic in World War II, in the Apollo spacecraft that put Neil Armstrong on the moon in 1969.
Those who judge that Francisco Vieira de Campos and Cristina Guedes are merely architects, trained at the famous “Porto School”, are also going to be disappointed. They became, by their tireless experimentation, a sort of “military engineers”, evoking the best Portuguese traditions of that practical discipline which planned, erected and rebuilt cities, defenses and buildings over the centuries, always starting from the same poetic pragmatism.
This pair of creators is focused on the conceptual and technological processes that lead to the final object, rather than in the object itself, which explains their special fondness for industrial design methods, for prefabrication, for prototyping, for the assembly of components. This is why they chose the name of “Less is More”, not because they feel completely imbued with the stylistic epithet of Mies van der Rohe, but rather because they are interested in exploring the ethical reduction of architectural design to an “infra” level. Their architectures are, as we described, infra-structures; the “less” here is not only “more” – it is “everything”.
That “everything” is the product of two sensibilities: that of Francisco who always had a particular fascination for the marine industry, for boating performance and sailing practice, addressing the project as a “regatta” in which it is necessary to choose the appropriate rope, the right knot, the characteristic wind, and the reliable current to meet the challenge; and that of Cristina, who always nourished a particular fascination for the conceptual intersections between contemporary art and architecture, addressing the design as a possible alchemical fusion between tectonics and plasticity, approaching the conceptual principles of Land-art, or, defining it better of a possible Land -architecture.
From their character gathering has emerged the works now being published, situated between the design of the “artifact” – one must see the bars of Vila Nova de Gaia or the interpretive center of the Batalha Monastery – and the urban design of public spaces and infrastructures, based on an assumed economy of resources, always seeking the maximum territorial effects from the minimum transforming principles – look at the revitalization of the Contumil and Pio XII neighborhoods in Porto, or the port containment barriers in Matosinhos.
Between these two scales of activity, linked by their systematic method, the team Less is More develops housing projects, approaching the house as a space, simultaneously “domesticated ” and “domesticator” or the landscape – see the houses of Ofir, of Afife and Boavista in Porto – but also various facilities buildings, to which they attribute the role of “engines” or “machines”, highly effective and qualified in their program – see, for example, the industrial units of inapal Plastics or Inapal Metal.
Among the published projects, I highlight those that I consider to be their most eloquent: the Cable Car stations in the Historic Site of Vila Nova de Gaia; the compact buildings that organize the Vallado vineyard near the Douro valley; and the future center of contemporary art in São Miguel, Azores.
In Gaia, the two designed infra-structures reinforce the existing urban skyline, which justifies the option of a singular building for the lower cable station, in a mixture with other “artifacts” they built before in the river banks; and the option for a massive and brutalistic building for the higher cable station, which embodies and extends the retaining walls of the adjacent municipal garden.
In the Douro valley, two new “containers” emphasize the beauty of slate walls that have humanized for centuries, this territory of Porto wine production. Thus, the Vallado winery is designed as a “bulwark”, emerging from the interior of the mountain range in order to enjoy the immense valley view, while the Wine Hotel is plotted as a line-level, contoured by the “continuous movement” of the wine terraces.
In the Azores, the design for a new space dedicated to contemporary creation – a joint project with João Mendes Ribeiro – takes the site of a former handicraft factory, maintaining its structure of different pavilions, built of volcanic stone, among which new concrete volumes are inserted. These volumes absorb the form, the colour and the texture of the old industrial buildings, forming, together, a beautiful ambulatory space between art and landscape.
This happy encounter between two different personalities strengthens the link between Iwo concepts that I consider latent in Portuguese architecture, probably inherited from the old methods of military engineering: “sensitivity” and “keen sense”. These are the same principles found in the joint projects of Alvaro Siza and Eduardo Souto de Moura, major characters of contemporary architecture with whom Cristina Guedes and Francisco Vieira de Campos had the opportunity to collaborate, respectively, at an early stage of their professional careers.
The infra-structural beauty of the works of the team Less is More is a proof that it is always possible to reinvent this ancient method (and not any kind of style!) that has defined the best Portuguese architecture, inside and outside the “Porto School”; or, what is the same, their works are the best testament of what will always remain from it: ingenuity.

 

Nuno Grande, Porto, 2013.

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Beleza infra-estrutural das obras da dupla Menos é Mais

 

Engenhos

 

Desenganem-se aqueles que pensam que vão encontrar obras de arquitectura convencionais neste número da TC. O que aqui se publica são “engenhos” de uma beleza, antes de tudo, infra-estrutural; isto é, mais próxima dessa composição exacta que admiramos nos aquedutos romanos, nas torres medievais, nos baluartes renascentistas, nas fachadas iluministas que reconstruíram Lisboa após o Terramoto de 1755, nas naves industriais de Oitocentos, nos bunkers que defenderam a costa atlântica na II Guerra Mundial, na nave Apollo que fez Neil Armstrong pousar na lua em 1969.

Desenganem-se também aqueles que julgam que o Francisco Vieira de Campos e a Cristina Guedes são apenas arquitectos, formados na famigerada “Escola do Porto”. Eles tornaram-se, através da sua incansável experimentação, numa espécie de “engenheiros militares”, evocando a melhor tradição portuguesa dessa prática disciplinar que traçou, ergueu e reconstruiu cidades, defesas e edifícios, ao longo de séculos, sempre a partir do mesmo pragmatismo poético.

A esta dupla de criadores, mais do que o objecto final, interessam sobretudo os processos conceptuais e tecnológicos que os conduzem até ele, o que explica a sua especial predilecção pelos métodos do design industrial, da pré-fabricação, da proto-tipagem ou da assemblagem de componentes. Por isso, tomaram o nome de “Menos é Mais”, não por se sentirem completamente imbuídos pelo epíteto estilístico de Mies van der Rhoe – que tanto ilustra as actuais tendências “minimalistas” em arquitectura – mas porque lhes interessa explorar essa redução ética do desenho arquitectónico ao nível “infra”. As suas arquitecturas são, como descrevemos, infra-estruturas, e o “menos” não é aqui só “mais”; é “tudo”.

Esse “tudo” é um produto de duas sensibilidades: a do Francisco que sempre alimentou um particular fascínio pela industria naval, pela performance náutica e pela prática da vela, encarando o projecto como uma “regata”, onde é preciso escolher a corda apropriada, o nó certo, o vento de feição, e a corrente segura para responder ao desafio; e a da Cristina, que sempre nutriu um particular fascínio pelos cruzamentos conceptuais entre arquitectura e arte contemporânea, encarando o projecto como uma possível fusão alquímica entre tectónica e plasticidade, aproximando-se aqui dos princípios conceptuais da Land-art, ou melhor dizendo, de uma possível Land-architecture.

Desse encontro resultam as obras agora publicadas, situadas entre o desenho do artefacto, de design exclusivo e refinado – vejam-se os bares de Vila Nova de Gaia ou o Centro Interpretativo do Mosteiro da Batalha –, e o desenho urbano, de espaços públicos e infra-estruturas, elaborado com base numa assumida economia de recursos, buscando sempre o máximo de efeitos territoriais a partir do mínimo de princípios transformadores – vejam-se as obras de Remodelação dos Bairros de Contumil e de Pio XII, no Porto, ou da Barreira de Contenção Portuária, em Matosinhos.

Entre essas duas escalas de actuação, naturalmente aproximadas pelo seu método sistematizador, a dupla Menos é Mais desenvolve ainda projectos para habitação, encarando a casa como um espaço, simultaneamente, “domesticado” e “domesticador” da paisagem – vejam-se as Casas de Ofir, de Afife e da Boavista, no Porto –; mas também para diversos equipamentos, aos quais é atribuído esse papel de “engenho” ou de “máquina”, altamente performativa e qualificadora do seu programa – vejam-se, por exemplo, as Unidades Industriais da Inapal Plásticos ou da Inapal Metal.

Entre os equipamentos publicados, destaco aqueles que considero serem as suas obras mais eloquentes: as Estações de Teleférico da Zona Histórica de Vila Nova de Gaia; os edifícios-muro que organizam a quinta vinícola do Vallado, no Douro; e o futuro Centro de Arte Contemporânea, em São Miguel, nos Açores.

Em Gaia, as duas infra-estruturas projectadas reforçam o perfil urbano preexistente, o que justifica uma opção mais objectual para a estação à cota baixa, numa mistura com outros “artefactos” já antes construídos na margem do rio; e uma opção mais telúrica e brutalista para a estação à cota alta, a qual corporiza e estende os muros de contenção do jardim municipal contíguo.

No Douro, dois novos “contentores” sublinham a riqueza dos muros em xisto que humanizam, há séculos, este território produtivo do Vinho do Porto. Assim, a Adega do Vallado assume a condição de “baluarte”, emergindo do interior da serra para espreitar o imenso vale, enquanto o Hotel Vinícola é traçado como uma linha de nível, contorcida pelo “movimento contínuo” dos socalcos vinhateiros.

Nos Açores, o projecto para um novo espaço dedicado à criação contemporânea – obra em parceria com João Mendes Ribeiro –, aproveita as instalações de uma antiga fábrica artesanal, mantendo a sua estrutura pavilhonar, construída à base de pedra vulcânica, no seio da qual se inserem novos volumes em betão aparente. Estes absorvem as características formais, cromáticas e texturais dos antigos pavilhões industriais, formando, no seu conjunto, um belíssimo espaço deambulatório entre arte e paisagem.

Este feliz encontro entre duas pessoas distintas, em torno de uma prática comum, reforça a articulação entre dois conceitos que considero latentes na arquitectura portuguesa, provavelmente herdados dos velhos métodos da engenharia militar: “sensibilidade” e “bom-senso”. Estes são os mesmos princípios que encontro nos projectos conjuntos de Álvaro Siza e de Eduardo Souto de Moura, personagens maiores da arquitectura contemporânea, com quem Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos tiveram a possibilidade de colaborar, respectivamente, numa fase inicial da sua carreira profissional.

A beleza infra-estrutural das obras da dupla Menos é Mais é a prova de que será sempre possível reinventar esse método ancestral (e não o estilo!) que vem definindo a melhor arquitectura portuguesa, dentro e fora da “Escola do Porto”; ou seja, as suas obras são melhor testemunho de que dela permanecerá sempre, e sobretudo, o engenho.

 

Nuno Grande, Porto, 2013

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