recuperação da fortaleza da nossa senhora da luz
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“É necessário mudar para que tudo fique na mesma;
mudar para que o essencial permaneça.”
Lampedusa (O Leopardo)

O projecto museológico previsto irá tornar a Fortaleza num centro interpretativo da arquitectura militar. O que se pretende é que o edifício se conte a si mesmo, tendo em conta que a heterogeneidade do público pressupõe uma estruturação suficientemente flexível dos espaços expositivos para permitir diferentes tipos de fruição do espaço – demorada e profunda ou mais rápida e lúdica – sem nunca comprometer uma leitura unitária do conjunto e das suas transformações ao longo do tempo.
O primeiro gesto da intervenção faz-se notar na antecâmara de acesso ao pátio,onde se faz uma reedição cenográfica do sistema de defesa, através da utilização de uma cortina de luz, no vão onde existiria a grade e da abertura da bueira actualmente tapada. No pátio, a intervenção passa essencialmente pela recuperação das fachadas e caixilharias, o que implica a demolição de algumas estruturas anexadas no século passado.
A intervenção que se propõe reconhece – se porventura não reforça – a implícita autonomia formal da estrutura existente. A opção fundamental passa pela procura de uma solução despojada, de impacto mínimo, pelo que a inclusão de novos elementos far-se-á através de estruturas leves e soltas das paredes e dos tectos, de forma a permitir sempre uma leitura total do espaço e das suas proporções. A infraestruturação flexível, prevista para toda a fortaleza,permite simultaneamente a inclusão dos novos programas e a percepção da configuração original dos espaços e dos seus usos.
Assim, optou-se por uma intervenção pontual baseada em passadiços (utilizados para vencer diferenças de cotas) caixas ou plataformas em U que permitem recriar os diferentes níveis sem deixar de revelar toda a altura dos espaços.Essa situação verifica-se no centro interpretativo do baluarte norte, sobre oqual se suspende a caixa que servirá de cozinha à cafetaria, tal como nas casernas (onde também funciona a recepção/loja), em que três estruturas,formalmente semelhantes mas diferentes na função, se soltam das paredes e denunciam o pé-direito triplo e as aberturas da fachada, bem como as marcas dos pisos e das escadas originais. Na sala do paiol, na torre, optou-se por uma caixa anelar, que transforma um mero passadiço num suporte para projecção de imagens. A utilização de caixas ou plataformas marca precisamente os centros interpretativos da fortaleza, que concentram os conteúdos informativos e funcionam como âncoras dos percursos expositivos, iniciando-os.
Os espaços interiores dos baluartes, de grande qualidade espacial deverão manter-se intactos e perceptíveis no seu todo, propondo-se a sua valorização através de uma intervenção mínima, quase imaterial, nomeadamente através de um cuidado projecto de iluminação e som. Pretende-se ainda conservar ou reabilitar os elementos pré-existentes, como as molinetas manuais, as canhoneiras e o forno do baluarte sul, devendo-se igualmente activar os respiradouros no tecto.
A intervenção na torre, primeiro elemento do conjunto arquitectónico, será feita de modo a reforçar a sua singularidade, o que passa por evidenciar certos elementos, como os seus contrafortes, cunhais de cantaria almofadada e seteiras.
No piso 2 situar-se-á a cafetaria, que se estende por toda a ala este e dá acesso ao exterior, onde termina o percurso museológico. A zona de atendimento com serviço de bar será implantada num ponto central, junto à escadaria e no cruzamento dos vários percursos, funcionando como uma rótula que articula os vários espaços. Para esse efeito, projecta-se um volume abstracto que, à semelhança de todos os novos volumes, se autonomiza da estrutura pré-existente,soltando-se do chão.
No compartimento anexo à cozinha deverão localizar-se todas as infra-estruturas de apoio, nomeadamente um elevador de serviço auto-portante (não danificando,por isso, a estrutura).
As instalações sanitárias serão localizadas em dois pontos da fortaleza, no mesmo prumo vertical, quer no piso 0, junto à entrada, quer no piso 2, na cafetaria.
A intervenção apresenta-se como um projecto em aberto, admitindo a possibilidade de continuação de campanhas arqueológicas, o que é indiciado pela proposta de um passadiço a ligar o baluarte sul e o baluarte este pela zona de contrafortes, o que permitiria concluir o percurso de leitura evidenciando a existência do anel baluartado, destacado da torre joanina. O próprio desenho do passadiço, e o seu sistema construtivo articulado, permite decidir in situ a melhor localização e configuração das aberturas. Propõe-se ainda tirar partido das aberturas existentes a várias cotas – que comunicam com os espaços abobadados dos baluartes – e transformá-las em écrans de observação privilegiados destes espaços.
A comunicação é algo a valorizar em todo projecto museológico, quer a nível da sinalética como dos conteúdos a colocar nos espaços expositivos. Todo o espaço é super infraestruturado, com as cablagens a serem distribuídas de modo discreto a nível do chão, pelo que é possível propor todo o tipo de suporte, como som, imagem estática, imagem dinâmica ou impressões, permitindo inclusivamente apossibilidade de se efectuarem visitas auto-guiadas pelos visitantes com aajuda de comandos ou interruptores que possam, por exemplo, iluminar e desvendar certos espaços.
Procurou-se que a nova intervenção fosse um novo estado de algo que no essencial permanece.

Competição

1º Prémio

Projecto

2004

Cliente

Câmara Municipal de Cascais

Localização

Cascais, Portugal

Arquitectos

Cristina Guedes + Francisco Vieira de Campos

Equipa de Projecto

Adalgisa Lopes, Ana Matias, Cláudia Costa, Cristina Maximino,Odete Pereira, Óscar Ribas, Pedro Jordão, Ricardo Cardoso, Ana Leite Fernandes,Francisco Lencastre, Tiago Souto Castro, Joana Miguel

Estruturas

Aníbal Costa

Conservação e Restauro

Gabriella Casella

Instalações Eléctricas

Professor Raul Serafim

Instalações Mecânicas

Raul Bessa

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